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domingo, maio 29, 2011

Lenha na Fogueira: Dilemas Morais

No livro “A Escolha de Sofia”, de William Styron, uma prisioneira polonesa em Auschwitz recebe um "presente" dos nazistas: ela pode escolher, entre o filho e a filha, qual será executado e qual deverá ser poupado. Escolhe salvar o menino, que é mais forte e tem mais chances na vida, mas nunca mais tem notícias dele. Atormentada com a decisão, Sofia acaba por se matando anos depois.
Dilemas morais, como a escolha de Sofia, são situações nas quais nenhuma solução é satisfatória. São encruzilhadas que desafiam todos que tentam criar regras para decidir o que é certo e o que é errado, de juristas a filósofos que estudam a moral.
Cada vez que um filósofo monta um sistema de conduta, procura algo que responda a todas as situações possíveis. O filósofo inglês John Locke (1632-1704), por exemplo, definiu o bem pela não-agressão, aquela ideia de que "a minha liberdade começa onde a tua termina". Já Rosseau (1712-1778) considerava o certo a vontade geral, a decisão da maioria.
Agora os dilemas morais estão a tornar-se no objecto de estudo de cientistas. E, para alguns deles esforçaram-se tanto para montar teorias morais em vão. É que, segundo novas pesquisas, raramente usamos a razão para decidir se devemos tomar uma atitude ou não. Analisando o cérebro de pessoas enquanto elas pensavam sobre dilemas, os investigadores perceberam que muitas vezes decidimos por facilidade, empatia ou mesmo nojo de alguma atitude. Duvida? A seguir, faça o teste, respondendo a 2 dilemas morais clássicos.


Um comboio vai atingir 5 pessoas que trabalham desprevenidas sobre a
linha. Mas você tem a chance de evitar a tragédia acionando uma alavanca
que leva o comboio para outra linha, onde ele atingirá apenas uma
pessoa. Você mudaria o trajecto, salvando as 5 e matando 1?
Este dilema moral foi apresentado a voluntários pelo filósofo e psicólogo evolutivo Joshua Greene, da Universidade Harvard.
"É aceitável mudar o comboio e salvar 5 pessoas ao custo de uma? A maioria das pessoas diz que sim", afirma Greene num dos seus artigos. De facto, numa pesquisa feita pela revista Time, 97% dos leitores salvariam os 5. Fazer isso significa agir conforme o utilitarismo – a doutrina criada pelo filósofo inglês John Stuart Mill, no século XIX. Para ele, a moral está na consequência: a atitude mais correta é a que resulta na maior felicidade para o máximo de pessoas.
Mas há um problema. A ética de escolher o mal menor tem um lado perigoso – basta multiplicá-la por 1 milhão. Mataria 1 milhão de pessoas para salvar 5 milhões? Uma decisão assim, sustentou regimes totalitários do século XX que desgraçaram, em nome da maioria, uma minoria tão inocente quanto o homem sozinho na outra linha. Além disso, o acto de matar 1 para salvar 5 é o oposto do espírito dos direitos humanos, segundo o qual cada vida tem um valor inestimável em si – e não nos cabe usar valores racionais ao lidar com esse tema.


Imagine a mesma situação anterior: um comboio a grandes velocidades irá atingir 5 pessoas desprevenidas a trabalhar sobre a linha. Agora, porém, há apenas uma linha. Mas o comboio pode ser parado por algum objecto pesado, se o mesmo for colocado na sua frente. Um homem com uma mochila muito grande está ao lado da linha. Se você o empurrar para a frente do comboio, ele vai parar, salvando as 5 pessoas, mas liquidando uma. Você empurraria o homem da mochila para a linha?
Avaliando pela lógica pura, este dilema não tem nenhuma diferença em relação ao anterior. Continua a ser uma questão de trocar 1 indivíduo por 5. Apesar disso, a maioria
das pessoas (75% nos estudos de Joshua Greene, 60% no teste da Time) não empurraria
o homem. A equipa de Greene descobriu que, enquanto usamos áreas cerebrais relacionadas à “alta cognição”, isto é, ao pensamento profundo, para resolver o dilema anterior, o mesmo provoca reações emocionais, mesmo nos que empurrariam o homem para a linha.
Uma versão mais bizarra deste dilema propõe uma catapulta para empurrar o homem pesado para a linha – e, surpreendentemente, a maioria das pessoas volta a preferir matar 1 para salvar 5. Conclusão: estamos dispostos a matar com máquinas, mas não mataríamos com as nossas próprias mãos.
Greene dá outro exemplo. Achamos um absurdo não prestar socorro a alguém que sofreu um acidente na estrada, mas esquecemos-nos rapidamente que milhares de pessoas morrem à fome em África. Para ele, o motivo dessa disparidade também está nos instintos. “Os nossos ancestrais não evoluíram num ambiente em que poderiam salvar vidas do outro lado do mundo. Da forma como o nosso cérebro é construído, as pessoas próximas activam o nosso botão emocional, enquanto que as distantes desaparecem na mente.”
Para Greene, a diferença de atitudes mostra que os filósofos que lidam com a moral devem levar mais em conta a natureza do homem – não para agirmos conforme a natureza, mas para superá-la. Tendo consciência de que os nossos instintos nos tornam capazes de matar friamente por meio de uma alavanca ou de ignorar genocídios distantes, temos mais poder para decidir o que é ou não correto.

O que é que tu farias?

domingo, maio 29, 2011

Lenha na Fogueira: a Obesidade

Obesidade – Produto da hereditariedade ou do meio?

Texto 1
            Uma equipa europeia de investigadores identificou um gene cujas mutações aumentam o risco de obesidade, segundo um estudo publicado pela revista nature Genetics em 07-07-08. Na base do trabalho, realizado por investigadores franceses e britânicos, está p gene PCSK1, que desempenha um papel essencial na maturação de várias hormonas com papel-chave, ao nível do cérebro, na ingestão de alimentos.
            Anteriormente, tinham sido identificadas mutações do PCSK1 em três pacientes que sofriam de uma forma rara e grave de obesidade, chamada monogénica (causada por um só gene), nos quais se constatou a ausência da enzima. (…) As investigações começaram com 150 famílias francesas com crianças obesas e foram depois alargadas a uma amostra maios de população em França, Dinamarca, Suiça e Alemanha. Os resultados mostram que anomalias aparentemente menores da enzima podem desencadear excesso de peso é geralmente atribuído a alterações do modo de vida relacionadas com a dieta ou a sedentariedade, mas há vários “genes da obesidade” já identificados.

            “Todos reagimos de modo diferente ao meio ambiente, que é cada vez mais semelhante, e a razão pela qual reagimos diferentemente tem em parte causas genéticas múltiplas. Este gene é uma causa entre outras”, explica o investigador.
www.cienciahoje.pt, 2008-07-07

Texto 2

            A obesidade, que é um dos problemas que afectam milhões de seres humanos, será produto da hereditariedade ou do meio? Um estudo recente mostrou que entre os adolescentes, o facto  de comerem pelo menos uma refeição por dia com a família diminuía muito a probabilidade de se tornarem obesos, de sofrerem perturbações no comportamento alimentar ou fazerem regularmente dietas. A refeição em família permite que comam mais lentamente o que é necessário para experimentarem a sensação combateria também os efeitos do stresse o que diminui os riscos de alimentação compulsiva, frequentemente ligados à necessidade de combater a angústia. As emoções positivas ligadas à partilha de um momento de convívio diminuiram também a necessidade que certos adolescentes sentem de regular as suas emoções através da alimentação.

Cerveu et Psycho, n.º 26, p. 11



            Os textos 1 e 2 apresentam dados que reforçam duas teses sobre a origem da obesidade: o primeiro defende que a obesidade é um produto da hereditariedade, enquanto que o segundo expõe uma ideia oposta, isto é, no texto 2 é defendido que a obesidade surge por influência do meio.
            Na minha opinião, ambos os textos têm a sua razão, isto é, a obesidade resulta de diversas interações, nomeadamente, dos aspectos genéticos (hereditariedade), ambientais (meio) e comportamentais. Assim, filhos com ambos os pais obesos apresentam uma probabilidade maior de virem a ser obesos, bem como determinadas mudanças sociais estimulam o aumento de peso em todo um grupo de pessoas.


            Temos dois grandes pesos nesta balança. Por um lado, a hereditariedade: há uma tendência para ser obeso se na família encontram-se pessoas com a mesma doença; e por outro lado, o meio: hoje em dia somos invadidos por enumeros anúncios publicitários que movem enormes quantidades de pessoas, é o caso do MacDonald’s, por exemplo. Este tipo de circustâncias influenciam, e de que maneira, a obesidade, tornando-se muito difícil dizer qual das variáceis é a que mais influencia; a hereditariedade e o meio estão tão interligados que acho que é mesmo uma tarefa impossível.


Qual é a tua opinião? Atreve-te e entra na discussão!

domingo, maio 01, 2011

Lenha na Fogueira: Conhecimento Científico vs Senso Comum


«Uma característica notável de muita da informação que adquirimos através da experiência comum é que, embora ela possa ser suficientemente precisa dentro de certos limites, raramente é acompanhada por qualquer explicação que nos diga por que se deram os factos alegados. Deste modo, as sociedades que descobriram os usos da roda habitualmente nada sabiam sobre forças de fricção, nem sobre as razões que fazem que os bens colocados em veículos com rodas possam ser transportados com mais facilidade do que os bens arrastados pelo chão.Muitas pessoas aprenderam que era aconselhável estrumar os seus campos agrícolas, mas poucas se preocuparam com as razões para agir assim. As propriedades medicinais de plantas como a dedaleira foram reconhecidas há séculos, embora habitualmente não se tenha oferecido qualquer explicação das suas propriedades benéficas. Além disso, quando o «senso comum» tenta dar explicações para os seus factos – como quando se explica o valor da dedaleira como estimulante cardíaco através da semelhança entre a forma da flor e a do coração humano – muitas vezes não há testes da relevância das explicações para os factos. [...]

É o desejo de explicações que sejam ao mesmo tempo sistemáticas e controláveis através de dados factuais que gera a ciência, e é a organização e classificação do conhecimento segundo princípios explicativos que é o objectivo próprio das ciências. […]

Na sua procura de explicações sistemáticas, as ciências devem reduzir a indeterminação da linguagem comum, remodelando-a. […] O artesão que trabalha com metais pode ficar satisfeito por saber que o ferro é mais duro do que o chumbo, mas o físico que quer explicar este facto tem de ter uma medida precisa da diferença de dureza.Uma consequência óbvia, mas importante, da precisão assim introduzida é as proposições poderem ser testadas pela experiência de uma maneira mais crítica e cuidada. As crenças pré-científicas são frequentemente insusceptíveis de testes experimentais definidos, simplesmente por serem compatíveis de uma maneira vaga com uma classe indeterminada de factos por analisar. […]

O maior rigor da linguagem científica ajuda a esclarecer o facto de muitas crenças do senso comum terem uma estabilidade […] que poucas teorias científicas possuem. É mais difícil construir uma teoria que, depois de confrontos repetidos com os resultados de observações experimentais rigorosas, permaneça inabalada, quando os critérios para o acordo que se deve obter entre esses dados experimentais e as previsões extraídas da teoria são exigentes do que quando esses critérios são vagos […].»

Ernest Nagel, A Estrutura da Ciência, 1961, trad. de Pedro Galvão, pp. 3-9


Discussão

«As explicações do senso comum são superiores às científicas porque são aceites por mais pessoas e durante mais tempo.» Concorda? Porquê?

Usualmente somos levados a pensar que se algo tem mais apoiantes/seguidores/adeptos é mais fiável, ou é melhor ou superior ao resto que está na sua categoria. Por exemplo, o benfica pode ser o clube com mais adeptos do país mas isso não é sinónimo de que o clube seja o melhor de Portugal (que é lógico que é o Porto!). Podemos então concluir que nem tudo o que parece é!
Tanto as explicações do senso comum tanto as explicações científicas são falíveis, e, deste modo, não há superioridades de uma para a outra. Contudo, as experiências do senso comum são subjectivas e não são exactas, enquanto que as explicações cintíficas são objectivas, claras e precisas, e também são exactas. Assim, na minha opinião, as explicações cintíficas ficam a ganhar, tendo, por isso, superioridade em relação às explicações do senso comum. Posto isto, posso verificar que a afirmação é falsa.



«A função da ciência não é explicar seja o que for, mas ajudar-nos a controlar a natureza.» Concorda? Porquê?

            Não concordo com a afirmação. A função da ciência também passa por explicar os factos, acontecimentos, de forma clara e precisa. E as explicações que a ciência nos vai dando, pode ajudar-nos a saber o que poderá acontecer depois de algum acontecimento, ajuda-nos a prever e a prevenir de certa forma. Por exemplo, a nossa casa está a arder, e já há chamas perto da porta de saída que tem uma maçaneta de metal, como sei que o metal é um bom condutor de cobre, se colocar lá a mão vou queimar-me; e deste modo já teria de tomar outras medidas.




Qual é a tua opinião?

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